quarta-feira, 9 de março de 2016

Amor só de Mãe


Assim como o Metal Extremo, o cinema independente é muito forte no Brasil, principalmente o gênero Terror/Horror/Gore. Mas como todo mundo sabe, não são segmentos palatáveis para a mídia, não seguem modismos e muito menos, pedem licença. É uma forma de expressão que vai de encontro a todos os padrões impostos ou criados pela sociedade, talvez por isso fique alheia aos grandes veículos de comunicação. Mas vamos falar do que realmente interessa.


Em uma das minhas empreitadas pela internet, mais precisamente lendo uma entrevista com o Luciano Azevedo, diretor do curta “Cabrito”, no blog All My Stuff . Me deparei com uma questão bem interessante; o entrevistador Thiago Vakka (Vocal/Guitarra da banda de Death/Doom Metal Jupiterian) faz a seguinte pergunta: “De onde surgiu a ideia para o roteiro do filme?” (Falando sobre o roteiro de Cabrito), Luciano responde: “Na época eu estava com uma crise de pneumonia fudida, delirando em febre, peguei um caderno e fui escrevendo umas cenas avulsas, buscava por alguma coisa bem Brasil do interior, histórias da roça, a uns anos trás quando vi Amor só de mãe e pensei ‘’Porra isso é terror de verdade!” Vinte e poucos minutos de filme que parecem 4 horas de soco na cara, pra mim é o melhor filme de terror nacional, foi uma influencia boa...”.


Fiquei no mínimo intrigado, com a afirmação de Luciano Azevedo, não sou um grande fã ou estudioso, do assunto, sou mais curioso mesmo. Então fui atrás do curta, “Amor só de Mãe”, após uma breve pesquisa, achei o filme completo no youtube. Para a minha surpresa; me caiu o queixo quase arranquei os cabelos. O filme é bem intenso, talvez um dos curta metragem mais assustadores, já produzidos e lançados em território nacional. Com uma duração média de 20 minutos, e contando com direção de Dennison Ramalho, o filme foi lançado em 2002, ai me pego pensando como eu ainda não conhecia isso, simples não está nos interesses da mídia.


Enfim, o filme foi aclamado e virou referência do gênero no Brasil, tamanha qualidade foi comprovada com os seguintes prêmios: Favoritos do Público no Cine Esquema Novo - Festival de Cinema de Porto Alegre em 2004, Favoritos do Público no Festival de Curtas de São Paulo em 2003, Melhor Diretor no Cine Esquema Novo - Festival de Cinema de Porto Alegre em 2004, Melhor Filme - Júri Popular no Fantasia Film Festival em 2003, Melhor Fotografia no Festival TIM de Belo Horizonte em 2003, Melhor Fotografia em Curta-metragem no Prêmio ABC - Associação Brasileira de Cinematografia em 2004, Melhor Montagem no Festival de Gramado em 2003, Melhor Música no Festival de Gramado em 2003, Menção Honrosa para Atriz no Vitória Cine Vídeo em 2003, isso para citar alguns. No Porta Curtas tem a fixa técnica completa, com todos os prêmios e festivais.


Em suma o curta é uma historia de amor e ódio, entre um pescador, apaixonado por uma mulher da vida, esta que deseja ir embora com o amado. No entanto, o pescador não quer deixar a mãe sozinha, é ai que se desenrola toda a trama. Outra curiosidade interessante é o roteiro do filme; que foi baseado em um canção da MPB de 1951, “Coração Materno” do cantor e compositor Vicente Celestino. Certo que com base na letra o roteiro sofreu algumas alterações, o que deixou o filme com um atmosfera bem doentia e macabra.


Em entrevista ao site Carcasse, Dennison Ramalho revela detalhes do roteiro: “Na música "Coração Materno", uma mulher muito má pede o coração da mãe de um homem como prova de amor, e ele mata "a mãezinha que está ajoelhada na frente do altar". É uma música super melodramática, que eu, por sinal, detesto. Pedi autorização pra quem detinha os direitos da música, e eles liberaram, desde que eu não usasse a música. Isso, pra mim, foi ótimo, pois eu nem pretendia usá-la. Minha idéia era a de contar uma história de terror muito violenta, com muito paganismo, e com elementos brasileiros. Queria que parecesse uma história da Kripta. Meu filme é uma louvação aos quadrinhos brasileiros dos anos 70 que formaram a minha cabeça, e não à música do Vicente Celestino. O cartaz do filme, aliás, foi feito pelo capista da Kripta, Júlio Shimamoto.”

Aos amantes do gênero vale dar uma conferida. 



Esse curta prova que o cinema nacional vai bem além do que a Globo Filmes produz. Tem muita coisa sendo feita de forma independente, com captação de recursos mínima, mas que nem por isso deixa a desejar. 

O underground não é forjado só no Metal Extremo, mas na literatura e nas películas. Não sou nacionalista ou hipócrita em afirma que esta tudo bem “Tudo numa boa”, mas o brasileiro mesmo em tempos difíceis produz com qualidade, quando sai da zona de conforto.


Apenas um adendo:
Espero que tenham curtido esta breve resenha, ninguém precisa se assustar, o Heavy Metal All Night, não vai mudar drasticamente. Mas vai ganhar pelo menos mais duas novas seções, uma com filmes nacionais ou curtas, geralmente de terror/horror, e uma com resenha e sugestão de livros nacionais, quanto a periodicidade das postagens, isso ainda é um mistério.

por Artur Azeredo
Todas as fontes estão descritas ao longo do texto

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