terça-feira, 14 de outubro de 2014

Higher "...uma parte de quem somos..."

A Higher nasceu da paixão de dois músicos pelo Heavy Metal, Cezar Girardi e Gustavo Scaranelo. Esses dois são músicos profissionais experientes, e respeitados no cenário da música brasileira, especialmente no campo do jazz e da música instrumental.

Dessa paixão pelo Heavy Metal surgiu o Higher e seu disco de estreia homônimo.  O disco apresenta uma sonoridade única dentro do Heavy Metal, “Higher” é um trabalho poderoso, que apresenta muito peso e melodias.

Sobre o mais recente lançamento conversamos com o Gustavo Scaranelo.


HMAN: Vocês são músicos experientes, já com uma carreira definida, o que os motivou, para formar o Higher?

Gustavo Scaranelo - Sempre fomos ligados ao metal, e o Higher nasceu da iniciativa de registrar os resultados que havíamos obtido com um projeto de quase vinte anos atrás, a banda Second Heaven. A coisa toda foi ganhando forma e nova identidade, demos um novo nome e assumimos o novo formato. Apesar de termos nossas carreiras também ligadas às outras áreas, como o Jazz no meu caso, tocar metal é bem diferente e nunca teria meu lado metal satisfeito tocando outros gêneros, o mesmo vale para o jazz.

“Higher” é um disco poderoso, como chegaram no resultado final, vocês já tinham uma linha a ser seguida?

A princípio tudo o que queríamos era produzir algo em que acreditássemos, mas não tínhamos muita clareza do resultado musical que viria, só depois entendemos a identidade do trabalho, com a pré-produção das faixas. Naturalmente a alma do disco foi tomando forma e crescendo, só demos espaço para isso acontecer.

Ainda falando sobre o disco, como funcionou o processo de composição? Existe alguma temática central nas letras?

O processo de composição foi baseado em canções, compostas para o projeto, claro, mas a roupa agressiva veio depois, com os arranjos. A princípio quis fugir dos elementos óbvios que as canções pediam, trabalhar com o que nos empolgava, e isso foi muito natural: o que antes era uma fuga do previsível se tornou a única opção, tamanha era a verdade com que estávamos produzindo o material. As letras todas seguem uma linha ideológica que está conectada ao nome da banda, capa do disco, enfim, ao trabalho todo. Queríamos dialogar com o lado mais alto do ser humano, aquele que toma decisões não baseadas em suas próprias conveniências, ou acovardadas pela escravidão voluntária diante do sistema, mas o lado humano que pensa, reflete, se responsabiliza e se compromete com o bem mútuo. Isso reflete a nossa forma de pensar, não necessariamente nossa condição, somos falhos, como um ser humano médio, mas temos essa consciência e brigamos para transformá-la.

O que “Higher” representa para vocês, sendo que vocês têm outros projetos musicais em áreas distintas e já tiveram uma banda de Heavy Metal?

A capa do disco responde bem essa pergunta. O Higher foi a forma que encontramos de rasgar nosso peito e expor algumas ideias e sentimentos. O ser humano é vasto e intenso e o Higher responde por uma parte de quem somos. O projeto tem tido toda a nossa atenção e cuidado, e estamos extremamente felizes com seu desenvolvimento.

O disco foi lançado em agosto, mas já tiveram algum retorno da mídia especializada?

Sim. Temos lido resenhas ótimas sobre o trabalho! O que mais me deixa satisfeito não são as notas, apesar de já termos recebido nota 10, mas o cuidado com que as pessoas têm escutado o disco. Os comentários mostram que nossas intenções musicais têm alcançado o público, essa é a maior satisfação para nós!

A capa foi idealizada por Carlos Fides (Noturnall, Shaman, Fire Shadow) como chegaram até ele? Vocês apreciam esse conjunto, a arte do encarte condizente com a proposta sonora?

A capa foi idealizada por mim e pelo Cezar, mas claro que o Carlos Fides teve liberdade para ilustrar as nossas ideias. Sou fã do trabalho dele e fiquei muito satisfeito com os resultados! Chegamos até ele através do Thiago Bianchi, que mixou e masterizou o disco. Com relação ao conjunto musica/ilustração/letra, acho indispensável, entendo um disco como um pacote de ideias de diversas naturezas, condizentes entre si, estimulando diversos sentidos. Em outras palavras, “Higher” corresponde a uma imagem, um som e uma ideologia, bastante coesas.       

Como vocês vêem o atual momento da cena Heavy Metal no Brasil?

Bom, a cena existe e isso já é uma coisa boa. Sei das dificuldades referentes ao underground, mas também conheço as dificuldades de se trabalhar com música de qualidade fora do underground, e as coisas não são tão diferentes assim. É importante se conscientizar de que música elaborada sempre terá uma parcela pequena de admiradores, trabalhamos para a ponta da pirâmide, e se engana quem acha que a base da pirâmide não tem sua função. Ninguém nasce ouvindo e gostando de coisas complexas, isso se dá pela educação e conseqüente construção de uma compreensão musical, que antes ocorre por parte das expressões musicais mais simples. E essa é a função da base da pirâmide, conduzir as pessoas ao topo, mas nem todos terão interesse, alguns ficarão satisfeitos apenas com a base, e isso é um direito deles. Falo isso tudo para dizer como vejo a questão da cena no que diz respeito à quantidade de público, nunca será o mesmo número de público de uma música mais digerível. Mas cabe ainda dizer que nós, sobretudo, somos os verdadeiros responsáveis pela cena, já que ela se constitui de banda, público, produtores de eventos, donos de bares, distribuidoras, mídia especializada, etc. É comum observar casas vazias com shows incríveis (seja no metal ou em no jazz), e a razão é simples: o público que existe não saiu da sua casa. Em resumo, nossa atitude está diretamente ligada à saúde da cena, ela não é um organismo a parte, mas a somatória de como eu, você, nós todos nos envolvemos com o assunto.           

Qual a opinião de vocês como músicos experientes, sobre a internet no mercado fonográfico, ajuda ou atrapalha?

A internet ajuda! Não muito àqueles que continuam tentando trabalhar no antigo esquema. É claro que hoje as pessoas baixam os discos antes mesmo do lançamento, e não acho que isso ocorra acidentalmente, as pessoas já conhecem a facilidade em disponibilizar a sua música mundialmente e a importância disso. O mercado fonográfico não me parece ter mais uma forma homogênea de trabalhar, já que ainda não se achou um esquema substituto para o modelo anterior. E acredito, como Dee Snider disse recentemente, que a forma como a internet “atrapalhou” a indústria fonográfica é na verdade a resposta do meio à uma postura gananciosa das próprias gravadoras, que hoje tentam se reinventar.      

Quais os planos para o futuro da Higher, já que vocês têm outros projetos ou não?

O futuro do Higher está cheio de planos. Em breve iniciaremos os shows e a produção do trabalho novo já está em pauta. Clipes também se aproximam! Aguardem!

Deixo aqui um espaço para as suas considerações finais!

Primeiramente, obrigado pela entrevista e interesse em nosso trabalho! Obrigado a todos que estão acompanhando o Higher! Vou aproveitar para bater na mesma tecla que tenho batido, quando tenho a oportunidade, e fazer um pedido ao público do meio underground: uni-vos!!! Muitos desfavores já foram feitos ao meio underground em função de ideias segregadoras. Enquanto o público do underground se dá ao luxo de discutir o subgênero da subcategoria daquele estilo de metal, em outros meios as pessoas se unem e se fortalecem! Seria incrível se os fãs de Punk, Heavy Metal, Prog, Death Metal, “sei lá Metal”, se juntassem e entendessem que um subgênero origina e sustenta o outro! Essas “contraposições” estilísticas são na verdade complementares e interdependentes, vide a rotatividade desses gêneros nas casas de show do meio. E no futuro, quem sabe, todos possamos entender que só existem dois tipos de música: a que é feita com o coração, com honestidade artística, e a que é feita para o mercado. E mesmo no metal, em geral, nos temos as duas. Pensem nisso!    


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por Artur Azeredo